O urso e o espinho

Era uma vez um velho urso que contra todos os conselhos se meteu em um espinheiro, saindo de lá com um espinho numa das patas. Urrando de dor, por causa de um pequeno espinho, ele pediu ao lenhador que amputasse sua pata. “Porquê você simplesmente não tira o espinho?” O lenhador perguntou. “Porque tirar o espinho não garante que um dia eu não me machuque de novo.” Respondeu o urso. “Porque então você não ouviu os conselhos e evitou os espinheiros?” quis saber o lenhador. Mas sem parar para pensar o urso respondeu: “Porque nenhum conselho te ensina o que é a dor, só o que é o erro.” O lenhador entendeu o que ele queria dizer. Levantou o machado e com um golpe só cortou a pata do urso que urrou de dor. Daquele dia em diante o Urso podia ser visto sozinho pela floresta, mancando em seu caminho. Até que um dia, um espinho se enfiou em sua outra pata…

Egoísmo

A terapeuta olhou pra mim com olhos azuis e neutros, tomando com calma sua xícara de chá. Não dizia nada. Preenchia o ar com um silencio tão incomodo que eu via minha boca se movendo solitariamente. Já meio acostumado com a sessão semanal de tortura, eu já havia me sentado com um lenço de papel na mão. Mesmo depois de prometer que nada me atingiria naquele dia. Ela esperou. Pacientemente, com a pergunta de praxe sobre como eu havia passado a semana. Havia assuntos menores a contar, outros maiores mas menos dignos de explicação. Assuntos tão aleatórios e supérfluos que eu me envergonhava tão logo os colocava em pauta. Tentava me conter, mas vez põe outra eu me via arrastado pelos meus pensamentos a um lugar que parecia simplesmente impossível evitar. Comecei a falar dos meus amigos. De todas as encrencas pelas quais passei, meus amigos eram a única constante nos últimos dez anos. Lembrei do fim de semana no interior, das risadas e historias passadas, das crianças brincando por perto. De toda calma, toda paz, todo conforto que havia no seu silencio. Parecia fácil enfrentar qualquer problema, com eles ao meu lado. Olhei para a terapeuta, e seu silencio incomodo, com vontade de me levantar e ir embora. Não precisava estar ali. Não fazia sentido perder meu tempo com uma desconhecida enquanto eu tinha tanto suporte vindo de outro lugar. Não fiz nada disso. Apenas gracejei sobre a nossa amizade, expliquei sobre meus sentimentos. Com um sorriso quase caloroso ela balançou a cabeça compreendendo. “São meus amigos.” eu disse. “Sei que é egoísmo, mas…” Ela pousou o chá na mesinha de centro. “um pouco de egoísmo é exatamente o que parece estar te faltando.” Sai de lá outra vez com a sensação de ter entendido tudo errado.

exorcismo

No ônibus a alma da garota abandonou o corpo. A massa de carne, sem espírito nem vontade, tombou para frente meio rígida, com um a boca aberta em um grande arroto, e olhos abertos de um azul vívido, que só enfatizavam seu aspecto de boneca. A cabeça se chocou contra o metal dos bancos, produzindo um som oco e desesperado, enquanto joelhos enrijecidos se reviravam sem apoio. Algumas mãos se ergueram em auxílio, estabanadas ou maliciosas, suaves ou caridosas, evitando que aquele corpo que se apagava como uma lâmpada chegasse ao chão e desvelando certa nudez no processo. Olhos mais tímidos se voltaram para a janela, mas foram poucos. Ciente da nudez do corpo, o espírito recém liberto da garota mudou de idéia, a boca moveu-se, as mãos buscaram apoio. Os olhos azuis, porém, mantiveram-se horrorosamente abertos, vítreos e baços, como se avistassem uma realidade distante, algo que ia além das janelas sujas de fuligem e merda de pássaros. A marionete encontrou a tensão das cordas e espaço entre os samaritanos e curiosos. Moveu-se na direção da porta, com o espírito ainda desconfortável dentro do próprio corpo. Vacilou nas escadas, achou o asfalto quente, tiquetaqueou os sapatos pela calçada alternando as lajotas pretas com as brancas e sendo engolida pela multidão.

colchão

Ainda estava escuro quando Douglas levantou do colchão bolorento que nos últimos dias havia se tornado seu lar. Não por opção. Não sabia onde estava. Sempre levava uns minutos para entender que lugar era aquele e como ele havia terminado ali. Naquele dia, não soube. “Levanta! Levanta! Vou precisar do colchão!” Douglas obedeceu feito uma ovelha. Achava difícil tomar as próprias iniciativas. Parecia que tinha errado em todas as suas escolhas e obedecer o tornara mais leve. Levantou. Duas pessoas ergueram o colchão em uma nuvem de bolor e pó, carregando-o para fora do quarto. Douglas permaneceu onde estava. Estático. Lentamente se dando conta de que não tinha mais nada no mundo. Lembrou-se da casa que havia decorado com detalhes da sua vida, das fotos espalhadas pelos cantos, dos presentes empilhados pelo chão. Lembrou-se do sorriso da esposa pela manhã. Tudo se fora. Restava a Douglas uma mala de mão cheia de roupas, o livro que não terminara de ler e um colchão bolorento que havia pego emprestado com a irmã, para dormir no chão de sua mãe. Agora nem isso. Quis chorar, mas não tinha mais força. O riso veio mais fácil. Gargalhou como se fosse o ultimo dia da sua vida. Espantou o sono do rosto. Colocou-se de pé. Ajudou os transportadores com o seu colchão e o resto dos moveis de sua irmã, lembrando de quando foi sua vez de carregar suas coisas. Não tinha muito. Nunca teve muito, mas parecia mais do que tinha agora. Voltou a cozinha e tomou um café tão gelado e fraco quanto seu desejo de viver. Tomou banho. Trocou-se. Verificou as mensagens do celular: tudo o que havia era silêncio. Sentia-se infecto. Indesejável. Vergonhoso. Riscou alguns números no papel na esperança de que ali encontrasse uma saída. Não havia.

Guarda chuva

Guarda-chuva é pra quem não tem alma. Pra quem não a lava, quem se protege com medo da encolha de um item diminuto. Guarda chuva é pra quem tem um fosso no peito, que se alaga em pântano. Eu sigo ensopado, abençoado e lavado.

Meu aniversário

Tenho saudades da minha avó. Tenho saudades dela todos os dias, mas a saudade aperta muito quando chega meu aniversário. Ela se foi quando eu tinha dez ou onze anos e eu nunca me recuperei da sua ausência. Era minha melhor amiga, a pessoa pra quem eu contava tudo. Ela gostava mais do meu aniversário do que eu. Atravessando estados de ônibus, para me dar um presente e voltar no dia seguinte. Ou me seqüestrava da casa da minha mãe para acender as velas na casa dela, chamar os parentes e fazer o samba tocar a noite inteira.

Quando eu aprontava, minha avó me batia com uma varinha que assobiava cortando o ar. Eu sempre chorava, sentava em um canto emburrado e via no rosto dela, o quanto aquilo havia doído nela. Minha mãe já não tinha o mesmo direito. Se me batesse, fosse pelo que fosse, lá ia minha avó me seqüestrar novamente e minha mãe levava dias até ter coragem de me pegar e me levar de volta para casa.

Minha avó ganhava uns tostões como empregada doméstica, mas não podia ouvir que eu quisesse algo, que se atolava em dívidas para me comprar o que fosse. Nós brigavamos por tudo, o tempo inteiro, eu não era a melhor das crianças. Mas minha avó me amava.

Um dia antes dela ir embora, me chamou de canto e pediu para me sentar. Disse que sentia saudades da mãe dela, uma coisa que eu mal conseguia entender. Então ela sorriu e disse que ia fazer uma viagem e que não ia poder me levar. Eu briguei com ela, por me deixar para trás. Disse que iria onde quer que ela fosse, que não queria responder mal a ela, que ia ser um bonzinho e ela disse que não tinha jeito, que não era culpa minha. Eu xinguei ela e sai correndo. Naquela tarde ela já havia me desculpado, havia preparado pão com manteiga e um copão de café puro pra mim. Ficou me olhando comer e eu não lhe disse uma palavra.

Minha mãe foi me buscar naquela tarde. Ninguém tentou entender porquê eu estava tão irritado. Peguei minhas coisas, virei minhas costas, fui embora. Dormi pouco naquela noite. Pela manhã, muito cedo, alguém tocou a campainha de casa…

Foi a última vez que eu vi minha avó.

No enterro, eu contei para minha mãe que eu tinha brigado com ela. Minha mãe me limpou o rosto e disse que ela sabia o quanto eu amava. Eu lembro disso todos os dias, sempre sinto a falta dela. Mas é sempre pior nos meus aniversários. Ela adorava os meus aniversários.

A idéia de um blog as vezes me assusta. Tem coisas que eu escrevo e que ninguém deveria ler. Tem coisas que eu escrevo e que nem mesmo eu deveria ler. Escrever é uma eterna descoberta, mas nem sempre o caminho é agradável. Nem sempre é correto. Quase nunca é uma simples verdade. Escrever com medo é podar-se em pensamentos. Ser cativo, diante de uma janela.

Primeiro dia de aula

Sempre que começo um curso novo, tenho dois medos: 1) ser a pessoa mais idiota da classe. 2) ser a menos idiota. Somos todos idiotas em um grau ou outro. Enquanto eu terminava a parte burocrática na minha inscrição do Curso de Roteiro da Academia Internacional de Cinema, eu tive certeza que pelo menos um destes medos era infundado. Na minha frente, baixo e careca, Ritalina (nome fictício) discutia com a atendente por um desconto que não podia ser feito. Meros, 0,5% de desconto, menos do que a passagem de ida e volta, se transformavam em uma guerra pessoal que atravancava todo o processo de quem esperava a sua vez.

Não chamei Ritalina assim por acidente. Tremendo quase convulsivamente, falando alto para ninguém em especial e para todo mundo ao mesmo tempo, parecia que ele podia fazer bom uso do remédio. Compensava a baixa estatura com energia, gritando, levantando as mãos, agarrando-se aos braços, rindo de piadas que ninguém era capaz de identificar e dando passos largos, de um lado para o outro, como um toxicômano. Era impossível não reparar nele. Olhando ao redor, percebi outros tomando notas mentais sobre seu comportamento e sorri com minha imagem no espelho. Ritalina, como imaginei pela minha sorte, também estava ali pelo curso de roteiro, mas não era a única estrela da classe.

Escrever, na maior parte do tempo, é um oficio solitário. O isolamento em suas próprias idéias é capaz de transformar uma pessoa de forma que ela nem sempre percebe. Tanto tempo passado com as próprias opiniões transformam-na na única opinião do mundo. O que torna qualquer discussão uma rixa de sangue. Levei meu tempo para entender que discutir era perda de tempo, ninguém está interessado em mudar de opinião. Pensamentos como aquele me faziam duvidar da sanidade de colocar tantos “escritores” juntos em uma mesma sala. No fim, fui vencido pela minha própria incapacidade de me considerar “escritor”.

Procurei a sala e me sentei em silêncio. Os primeiros dias são sempre constrangedores e eu aprendi a não exagerar na exposição. Nunca gostei de holofotes. Prefiro trabalhar de cabeça baixa, deixando que as coisas aconteçam por si, muitas vezes me queixando por migalhas que não foram notadas. Poucas coisas me irritam mais no contato humano do que a egocentria. Acho irritante ver tantas pessoas imaginando que o mundo roda ao seu redor, quando todos sabem que na verdade ele gira ao MEU redor. Eu ainda era capaz de rir disso. Ao contrario dos outros egocêntricos, não preciso reafirmar minha importância, levantando a mão a cada instante em uma busca patética de atenção. Sentado, de cabeça baixa, tomando notas sobre o primeiro personagem da noite, assisti ao desfile de toda uma fauna alimentada a pão e really shows, sedenta pelo seu lugar ao palco. Todos eram astros, todos fingiram-se personagens. De tão bizarro o espetáculo tornou-se cômico, exceto por Ritalina que depois de um tempo começou a simplesmente dar nos nervos com suas interrupções sem sentido.

Haviam outros. Seres tão exagerados em suas representações que pareceriam deslocados em qualquer roteiro. Sorrindo ao caminhar, como candidatos de uma eleição que nunca iria acontecer. Todos tão preocupados em serem admirados que calafrios percorreram minha espinha, antecipando a guerra de egos. Enquanto os personagens eram desafiados a se apresentar, eu tentava resumi-los em uma única palavra. Ingênuo. Precoce. Controladora. Perdido. Narcisista. Megalomaníaco. Distímica. O professor fez o possível para contornar os obstáculos, com uma experiência e um jogo de cintura que me deu inveja. Foi cansativo. Terminei a aula com um misto de boas e más impressões, entendendo que eu provavelmente estava no lugar certo, com as pessoas erradas. Não importa. Quis acreditar. Tudo o que eu precisava fazer era me manter afastados dos egos, concentrado no meus planos. Era como qualquer outro trabalho. Esqueça os jogadores, concentre-se no jogo. O que importa era o que eu tinha ido buscar. Mas ainda era cedo para falar disso tudo. Agradeci o professor pela aula e passei pela porta me desviando dos outros alunos. Seria assim pelos próximos meses.

Carrossel de palavras

Palavras são seres estranhos. Penetram nos nossos poros, afundam-se em nossa corrente sanguinea, navegam pelo nosso corpo até estarem tão fundidas ao nosso DNA que se tornam uma reprodução do que nós achamos que somos. As vezes escuto vozes, as vezes elas saem pela minha boca, as vezes elas são minhas, outras tantas nem tanto. As piores palavras são aquelas que pertencem a alguém que eu deixei de ser, aparecendo subitamente para responder perguntas, como que zombando pelas coisas que eu jurei nunca mais dizer. As melhores, são as lembranças de alguém que eu gostaria de ter sido. Tantos eus, tantos nomes, tantas páginas… tantos segredos do lado de dentro e do lado de fora, escorregando pelos meus sonhos. É como viver em um carrossel, girando loucamente em um mesmo lugar, acreditando que o borrão de luzes que foge desesperadamente do vórtice é o mundo como tem que ser. E vez por outra os olhos vêm uma placa, um sinal, uma letra, e a mente só registra aquilo por um instante sem que você saiba mais onde foi. Mas as palavras estão lá em sua cabeça, uma armadilha para pensamentos que você não tem certeza de onde vieram. Certeza. Todas as certezas são mentiras que contamos para nós mesmos. São palavras que juramos esquecer. Mas as palavras não esquecem. Elas não deixam esquecer.

Castelo de Doces

Era uma vez uma princesa magrela, que foi presa num castelo de caramelo, por um vilão de novela. ”Pode viver aqui dentro para sempre, – ele disse. – e ser da internet a mais bela, ou pode comer seu caminho pra fora e ser gorda fora da janela”. Melhor presa, do que gorda, respondeu ela. Morreu online, sem flores, nem capela.

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